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Terapia Ocupacional: Breve histórico e sua atuação com a dependência química.

18/10/16 - 14:38:07 (Tiago Murilo)
Alterado em: 31/12/69 às 18:00:00 por

Terapia Ocupacional é uma profissão da área da saúde que surgiu sob o signo da reabilitação, no início do século XX, nos Estados Unidos, com o intuito de restaurar a capacidade funcional e reinserir os incapacitados físicos e mentais decorrentes das 1ª e 2ª Guerras Mundiais na sociedade. No Brasil, a história da profissão remonta ao período posterior à Segunda Guerra Mundial e às estratégias de implantação de programas de reabilitação na América Latina, preconizadas por organismos internacionais como, por exemplo, a Organização das Nações Unidas. Porém, somente em 13 de Outubro de 1969, foi reconhecida como um curso de nível superior, por meio do Decreto-lei nº 938/69, sendo constituído de uma grade interdisciplinar o que leva a terapia ocupacional “ser um elemento importante na construção de novos rumos para a atenção à saúde integral, globalizante e na perspectiva da totalidade, subjetividade e singularidade das pessoas”. (BARROS, 2002)

Com o advento da Reforma Psiquiátrica, no final da década de 70, o movimento da Reforma Psiquiátrica Brasileira, foi fortemente influenciado pelo movimento de desinstitucionalização psiquiátrica italiano, a fim de romper com a lógica segregativa e violenta da instituição asilares vigente e a busca da transformação das propostas de atendimentos em saúde mental, assim como, salvaguardar os direitos civis, a dignidade pessoal, os direito humanos dos usuários, garantindo a participação deste sujeito, tendo como marco histórico a Conferência Regional para a Reestruturação da Assistência Psiquiátrica, realizada em Caracas no ano de 1990, e a promulgação da Lei nº 10.2016/2001, a qual dispõem sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais, redirecionando o modelo assistencial em saúde mental e orientando a atenção prioritária em serviços comunitários.

Com a estruturação do Sistema Único de Saúde (SUS), a partir de 1990, e a realização das I e II Conferências Nacionais de Saúde Mental (1987 e 1992), as quais impulsionaram a humanização do tratamento com consequente fechamento dos leitos manicomiais. Conceitos antiquados deram espaço a um novo paradigma que define o usuário como sujeito e protagonista, ressaltando a cidadania e a inclusão social. O Relatório Final da III Conferência Nacional de Saúde Mental ratificou as propostas relacionadas à reabilitação psicossocial e à construção da rede de atenção à saúde mental. Fruto desta indicação foi à regulamentação e normatização específica para o funcionamento dos Centros de Atenção Psicossociais (CAPS), por meio da Portaria nº 336/02, sendo eleitos como procedimentos substitutivos em saúde mental para suprir a demanda produzida pelo fechamento dos hospitais psiquiátricos e como o lugar de produção de novos modelos de assistência.

As substâncias psicoativas fazem parte da vida do homem desde os tempos primitivos, quando seu uso limitava-se a rituais ou a circunstâncias sociais específicas. Todavia, foi nas décadas de 80 e 90 que houve um aumento no consumo de cocaína, crack e anfetaminas ilícitas. De acordo com Organização Mundial de Saúde (OMS, 2001), cerca de 10% das populações dos centros urbanos de todo o mundo consomem abusivamente substâncias psicoativas, independentemente de idade, sexo, nível de instrução e poder aquisitivo (BRASIL, 2003).

A prestação de cuidados ofertada ao usuário de substâncias psicoativas é um desafio constante, efetuado por meio de vários dispositivos ofertados pelo SUS, incluindo o CAPS AD, o qual valoriza as atividades de âmbito multiprofissional associadas à perspectiva de reinserção do dependente químico. Através da Portaria nº 2843 de 20 de setembro de 2010, institui no âmbito do Sistema Único de Saúde – SUS, o Centro de Atenção Psicossocial de Álcool e Drogas - 24 horas – CAPS AD III. . Sendo definido pelo Ministério da Saúde como um serviço especializado no atendimento de pessoas que fazem uso abusivo de álcool e outras drogas, previstos para cidades com mais de 200.000 habitantes, ou cidades que, necessitem deste serviço para dar resposta efetiva às demandas de saúde mental. (BRASIL, 2005).

As consequências do uso de substâncias psicoativas podem estar relacionadas a transtornos físicos (cirrose hepática, Infarto agudo do miocárdio AVC, DPOC, déficits na capacidade de aprendizagem e memorização, dentre outros acometimentos); as lesões decorrentes de acidentes no desempenho de atividades laborais e automobilísticos; e o rompimento de laços. Por outro lado, há o estigma, a exclusão, o preconceito, e a discriminação, que são ao mesmo tempo agravantes e consequências do uso de álcool e das drogas, o que coopera intensamente para a situação de comprometimento global que acomete esses usuários.

Portanto, o uso abusivo de álcool e outras drogas podem ser considerados um problema de saúde pública em função de sua complexidade e magnitude, uma vez que seus efeitos afetam expressivamente a saúde e a qualidade de vida dos usuários, familiares e de toda a sociedade (AZEVEDO e MIRANDA, 2010). Deste modo, implantação de serviços para assistência de usuários faz-se necessária para atender à complexidade da situação do uso abusivo de substâncias psicoativas, dentre esses está o Centro de atenção psicossocial de álcool e outras drogas – CAPS ad.

O desempenho do terapeuta ocupacional tem como ferramenta principal o estudo da relação que o homem estabelece com suas atividades em seu cotidiano. Segundo a Organização Mundial da Saúde – OMS, a Terapia Ocupacional é a ciência que estuda a atividade humana e a utiliza como recurso terapêutico para prevenir e tratar dificuldades físicas e/ou psicossociais que interfiram no desenvolvimento e na independência do cliente em relação às atividades de vida diária, atividades instrumentais de vida diária, descanso e sono, trabalho, educação, lazer, brincar e participação social.

Enfatizando a atuação do terapeuta ocupacional no cenário do CAPS ad, esta tem como principal objetivo a facilitação do gerenciamento da dependência química e da reinserção social com foco na autonomia, vale lembra que são sempre considerados, primeiramente, desejos e vontades do usuário.

Segundo Oliveira (2006, p.232), os objetivos terapêuticos ocupacionais na área da dependência química são:

·         Possibilitar expressão simbólica e subjetiva, a qual se estabelece pelo real processo de comunicação terapeuta-paciente-atividade;

·         Promover compreensão a respeito da problemática relacionada ao abuso de substancias químicas, através de uma aprendizagem centrada na realidade do usuário;

·         Estimular potencialidades favorecendo o fenômeno da construção pessoal de cada indivíduo, utilizando-se diferentes linguagens: plásticas, corporal, literária etc;

·         Favorecer a reinserção social e reconstrução da cidadania, considerando de fundamental importância a capacitação e/ou retorno profissional, a exemplo das cooperativas de trabalho ou oficinas de produção e geração de renda;

 

“Ser terapeuta ocupacional é acreditar que todas as pessoas são capazes, independente de sua condição [...] É estudas profundamente a ação humana nos diversos momentos da vida e desenvolver estratégias para que cada pessoa possa tomar posse de seu fazer, a partir de seus desejos, expectativas e necessidades” Celina Bartallotti

 

Por Aline Andreia Klein

CREFITO 8 17350-TO

 

Referências

 

AZEVEDO, D.M; MIRANDA, F.A.N. Práticas Profissionais e Tratamento Ofertado nos CAPSad do Município de Natal-RN: com a palavra a família. Esc Anna Nery Rev Enferm jan-mar; 14 (1): 56-63, 2010.

 

BRASIL. Ministério da Saúde. Conferência Regional de Reforma dos Serviços de Saúde Mental : 15 anos depois de Caracas. Reforma Psiquiátrica e Política de Saúde Mental no Brasil. - Brasília: Ministério da Saúde, 2005.

 

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria Executiva. Coordenação Nacional de DST e AIDS.A Política do Ministério da Saúde para a Atenção Integral a Usuários de Álcool e 44 outras Drogas/ Ministério da Saúde, Secretaria Executiva, Coordenação Nacional de DST e AIDS. - Brasília : Ministério da Saúde, 2003

 

BRASIL. Ministério da Saúde . Portaria n.º 336/GM Em 19 de fevereiro de 2002. Disponível em:. Acesso em 28 de Abril de 2012

 

BARROS, D.D., GHIRARD, M.I.G., LOPES, R.E. A terapia ocupacional social. Revista de Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo, 2002

 

OLIVEIRA, Y.C. A Clínica Terapêutica Ocupacional com Usuário de Substâncias Psicoativas: o desafio da práxis. Revista Brasileira em Promoção da Saúde, vol.19, número 004. Universidade de Fortaleza. Fortaleza, Brasil p.229-233. 2006.